Problema de Cabeças

11/05/2009 at 20:05 3 comentários

Como isso começou, eu não sei dizer. Mas quase sempre foi assim.

Acho que é tudo culpa de algum tipo de problema de concentração, causado por um certo trauma de infância, uma memória perdida ou algo parecido. Fato é que eu não consigo evitar. Ao meu redor, cabeças explodem.

Acontece sem mais nem menos. Eu posso estar batendo um papo com um amigo, andando de ônibus, ou até fazendo os dois ao mesmo tempo. Também posso estar assistindo a uma palestra ou dando um mergulho na praia, mas não fazendo os dois ao mesmo tempo.

As memórias mais antigas que eu tenho disso vem da 7ª série. A professora de gramática – uma daquelas fabricadas em grande escala, loira oxigenada, baixinha e de voz aguda – lecionava tranqüilamente sua matéria quando de repente “BOOM”. Sua cabeça explodia. Mas acalme-se. Não explodia de verdade, é claro. Era tudo fruto da minha imaginação. Mas era um pouco perturbador, pelo menos pra mim.

Quando eu dava por mim, lá estava a cabeça dela no mesmo lugar, oval e enrugada como sempre. Minutos depois, em mais um momento de desconcentração, a cabeça da garota nerd da primeira fileira explodia. Depois de alguns segundos sem ninguém demonstrar alguma reação, todos começavam a gritar em pânico e o caos estava instalado. E mais uma vez tudo voltava ao normal, sem mais nem menos. A cabeça da menina estava inteira e seus óculos não estavam mais estilhaçados. O sangue que cobria a parede havia evaporado.

Havia também momentos em que as cabeças de todos explodiam. Todos, eu disse. Mas era menos interessante, pois não tinha ninguém pra reagir quanto ao ocorrido. Elas explodiam e fim de cena. A explosão seguida de momentos de pânico era muito mais interessante. Mesmo assim eu não conseguia evitar explodir a cabeça de todos de vez em quando, só que o arrependimento era certo.

Varias vezes as cabeças explodiam e eu acordava com alguém me cutucando. Dormia de olhos abertos de verdade. Acho que já explodi mais cabeças em minha mente do que o Rambo já pensou em explodir.

Lembro-me de um momento marcante no meu 1º ano do ensino médio, logo após explodir a cabeça de uma coordenadora que estava dando um sermão para os alunos, em que um colega de sala me despertou. Ele disse, com essas palavras:

_Sempre que essa desgraçada vem encher o saco, eu imagino ela de quatro dando pra um cavalo. Aí meu mau humor vai embora e eu rio por dentro.

Por um breve momento imaginei que aquelas palavras seriam minha salvação. Fiquei impressionado com o que ele havia dito. Sem titubear, tirei a roupa dela e pus um cavalo em cena para comê-la em plena sala de aula. Um sorriso involuntário surgiu em meu rosto. Eu estava salvo! Mas esta alegria durou apenas por alguns segundos, quando, no meio da cena tragicômica de zoofilia, a cabeça do cavalo explodiu, seguida pela cabeça da coordenadora.

No 2º ano uma coisa mudou a minha vida. Meu professor de história estava nos mostrando alguns vídeos de momentos históricos no DVD. Eu não pude evitar de explodir a cabeça de todos aqueles que apareciam na telinha, desde Hitler até o próprio Chaplin. A verdade era que eu já estava acostumado com todas estas explosões. Já havia aceitado e me acomodado com aquilo. Pelo menos até o momento em que, no vídeo de um desfile presidencial norte-americano, o presidente acenava sorridente para o seu povo quando “KABOOM”. Sua cabeça explodiu sozinha, antes mesmo da minha intervenção que estava por vir.

Dei um grito e um pulo da cadeira, jogando-a para trás. Todos os 60 alunos olharam para mim, abismados.

_Está tudo bem Henrique? – perguntou o professor.

Comecei a gaguejar muito, minhas mãos tremiam.

_V-você, v-v-viu isso?! A… a… cabeça d-dele explodiu! De v-verdade!!!

_Sim, este é o vídeo do assassinato de John F. Kennedy que ocorreu em 22 de novembro de 1963, em Dallas, no Texas.

Me deram alguns copos d’água e deixaram eu ir embora pra acalmar os nervos. Chegando em casa, ainda meio perturbado com o vídeo, contei aquilo para a minha mãe, que imediatamente ligou para a escola quebrando o pau, dizendo que aquilo não era vídeo para um professor de ensino médio ficar mostrando em sala de aula. Era um vídeo de um assassinato real, cruel e doentio. A reclamação foi registrada e não deu em nada.

Por incrível que pareça aquilo tudo foi positivo. Após todo o choque produzido pelo vídeo, fiquei cerca de seis meses normal. Durante seis longos meses, nenhuma cabeça explodiu em minha volta. Eu estava sorridente, aquele vídeo sim havia me curado! Me sentia um verdadeiro Peter Parker andando pelas ruas de Nova Iorque ao som de “Raindrops Keep Falling on My Head”.

Porem, como toda boa doença psicológica, em um show de minha banda predileta, eles tocaram uma música que relembrava aqueles tempos de perturbação e explosões, e tudo aquilo foi resgatado em minha mente. Do nada, a cabeça do público inteiro explodiu. Caí e fiquei estendido em estado de choque no chão. Apenas a banda havia sobrevivido, sem saber o que fazer. Após alguns segundos sem reação, os músicos saíram correndo e gritando. Despertei com um copo de cerveja virado na minha cabeça.

_Ta tudo bem cara?

E a cabeça de meu amigo explodiu.

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Entry filed under: Mente Doentia.

Gripe Explosiva

3 Comentários Add your own

  • 1. Lucas Thom  |  12/05/2009 às 22:14

    Ahhh claro… as cabeças explodiram! *Charlie sobre seu post.

    Responder
  • 2. Marto  |  16/05/2009 às 19:38

    Eu tive exatamente o mesmo problema vendo um vídeo da Marylin Monroe cantando “I wanna be loved by you”. Só que em vez da escola, eu estava em casa. E em vez de cair da cadeira, eu fui correndo tomar uma ducha fria. É, talvez não tenha sido exatamente o mesmo problema.

    Responder
  • 3. .beto lopes  |  06/09/2009 às 14:31

    eu lembro desse vídeo do chaplin.
    aehhaehuaehuaehuaehuae
    *EXPLODE*

    Responder

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